
Uma iniciativa que combina inteligência artificial, energia solar e economia circular está transformando a gestão das estradas rurais no departamento de Rivera, Uruguai. Desde dezembro de 2024, um projeto piloto implementado pela Universidade Tecnológica (UTEC), em colaboração com o Escritório de Planejamento e Orçamento (OPP) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), utiliza “totens inteligentes” para monitorar o trânsito em tempo real.
Instalados em pontos estratégicos das estradas de Piedra Furada e Arroyo Sauzal, a poucos quilômetros da cidade, os dispositivos foram desenvolvidos por pesquisadores da UTEC Norte com foco em baixo custo operacional e sustentabilidade. Os totens operam de forma autônoma, alimentados por painéis fotovoltaicos e baterias de segunda vida, que são gerenciadas por sensores de temperatura e voltagem.
“A tecnologia permite coletar e analisar informações em tempo real, oferecendo uma ferramenta de gestão territorial baseada em evidências”, afirma Mauricio Mendes, professor de Engenharia de Controle e Automação da UTEC e coordenador do projeto.
Além de registrar o fluxo de veículos, os equipamentos medem a temperatura e os níveis de água em pontes e córregos, fornecendo dados cruciais para a segurança e manutenção das vias.
A comunicação dos dados é garantida por uma rede LTE da Antel ou pelo serviço de internet via satélite Starlink, assegurando a conectividade contínua mesmo em áreas isoladas. As informações são enviadas em formato JSON para servidores na nuvem.
O sistema emprega modelos de visão artificial baseados em YOLO (You Only Look Once), que identificam e classificam veículos —carros, caminhões, entre outros— a partir do número de eixos. Essa análise permite a elaboração de estatísticas detalhadas e a identificação de padrões de circulação.
Entre dezembro de 2024 e setembro de 2025, o sistema processou 86.409 registros com uma margem de erro inferior a 5%. A análise revelou que o maior fluxo de trânsito ocorre às 17h, com mais de 8.500 veículos registrados nesse horário.
Os dados também apontam para padrões de vulnerabilidade social. Em dias de chuva (com mais de 0,5 mm), por exemplo, o uso de motocicletas diminui 26%, enquanto o tráfego de caminhões sofre uma queda de apenas 5%, um indicativo relevante sobre a mobilidade da população local. Do total de registros, foram detectados 63.419 automóveis, 8.140 motocicletas, 7.772 bicicletas e 196 caminhões de carga pesada (6 eixos).
A equipe do projeto, que inclui os pesquisadores Cristiano Schuster, Claudio dos Santos e Bruna de Vargas, enfrentou desafios como garantir a confiabilidade energética, a resistência a condições climáticas adversas e a segurança dos dados. Para isso, foi desenvolvida uma arquitetura robusta com redes VPN privadas e criptografia de ponta a ponta.
Para o futuro, Mendes prevê a expansão do sistema para outros pontos críticos do território. Está planejada também a integração dos dados diretamente com as plataformas do OPP por meio de uma API (Interface de Programação de Aplicações). A equipe trabalha ainda no desenvolvimento de novas funcionalidades, como reconhecimento de placas, modelos de classificação avançada e análise da vida útil das baterias.





