
Para entender um pouco mais sobre os acontecimentos que tem prendido a atenção do planeta, um novo conflito entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza, a reportagem da Lince Comunicação procurou um dos maiores especialistas em Oriente Médio do Brasil, Renatho Costa.
Professor da Universidade Federal do Pampa em Sant´Ana do Livramento, Costa é dos autores do Livro “Sem Caminhos para Gaza”, obra que aborda a difícil realidade do povo palestino na Faixa de Gaza, uma região marcada por conflitos e restrições de acesso. Os autores exploram as condições de vida, os desafios políticos e sociais enfrentados pela população local, assim como as limitações impostas pelo bloqueio e controle militar exercido por Israel sobre a região. O livro oferece um olhar crítico e sensível sobre a situação, buscando promover uma compreensão mais ampla e humanizada do conflito no Oriente Médio.
Desde o sábado, após ataques realizados pelo Hamas em territorio israelense, uma represalia anunciada foi levada a cabo e ja provocou centenas de mortes e deixou milhares de feridos na Faixa de Gaza. Costa respondeu a alguns questionamentos enviados pela Lince com o objetivo de auxiliar a comunidade santanense e entender um pouco mais sobre o contexto. O livro traz à tona a importância do papel da comunidade internacional na resolução do conflito, destacando a necessidade de um compromisso global para encontrar uma solução justa e duradoura para a situação em Gaza.
“Sem Caminhos para Gaza” é uma obra que não apenas informa, mas também provoca reflexão e empatia. Ao apresentar uma visão abrangente e multifacetada do conflito na Faixa de Gaza, os autores nos lembram da urgência de buscar uma solução que respeite os direitos e a dignidade de todos os envolvidos. É uma leitura essencial para qualquer pessoa interessada em compreender as complexidades e desafios enfrentados por essa região tão marcada por conflitos. E foi justamente por conta disso que a Lince Comunicação fez contato com o especialista, cuja residencia atual é justamente em Sant´Ana do Livramento.
- Professor, o que há de diferente nesse novo capítulo dos conflitos entre Israel e a Palestina (Hamas)?
Renatho Costa: Cleizer, entendo que o aspecto mais relevante a destacar seja o potencial bélico alcançado pelo Hamas. Temos presenciado inúmeros ataques de Israel à Gaza e o revide dos palestinos era praticamente insignificante, devido ao Domo de Ferro. Contudo, dessa vez, a capacidade de destruição dos mísseis palestinos e sua estratégia de atuação em solo fez com que os israelenses não conseguissem revidar imediatamente. Claro que há algumas hipóteses aventadas que precisaremos esperar uma definição ainda, como uma possível invasão hacker que teria prejudicado o funcionamento do Domo de Ferro, ou mesmo que a quantidade de mísseis lançados pelo Hamas estivesse acima da capacidade de atuação dos israelenses. Teremos que aguardar mais detalhes para entender melhor o que se passou, mas no que tange aos danos provocados aos israelenses, de fato, foi algo inimaginável. A percepção do Estado de Israel era de que viviam numa segurança absoluta, no entanto, os palestinos mostraram que apesar de viverem em “uma prisão a céu aberto”, não estão derrotados. Claro que a represália israelense tem sido brutal, mas isso já é parte do modo de agir do Estado de Israel. Se fosse destacar uma diferença, como você questionou, diria que o poder de destruição do Hamas fez com que o Estado de Israel voltasse a repensar seu sistema de segurança. Em certa medida, trouxe para a população israelense o mesmo temor que os palestinos de Gaza vivem diariamente, qual seja, de que são vulneráveis.
- Por que boa parte das grandes nações, incluindo o Brasil, se apressa em prestar apoio a Israel?
Renatho Costa: Primeiramente, por uma questão protocolar do sistema de nações. É evidente que um ato como esse, onde centenas de pessoas são mortas, deve ser condenável. Assim, todos os países logo se posicionam contra o ato. Claro que quando essas mortes acontecem contra ocidentais, a cobertura é muito maior e a ausência de aprofundamento nas causas do ato são deixadas de lado. Entendo que esse seja o maior problema, a superficialidade com que se trata a questão. Todos apenas focam no ato. Mas isso é uma estratégia do Estado de Israel, pois não é interessante que se aprofunde nas raízes da causa da violência e quem é o verdadeiro detrator dela. Quantos palestinos morrem por dia em Gaza devido ao Estado de Israel controlar o acesso de tudo, de água, energia à comida. E quem se importa com isso? Não é novidade que quando a mídia mostra imagens de ocidentais sendo mortos faz com que a comunidade internacional se mobilize, mas qualquer outro povo, muitas vezes é tratado apenas como números. Então, essa maneira dos Estados agirem ao condenarem o ato em si, é algo protocolar, tanto que a declaração do Conselho de Segurança segue esse modelo, mas impedir que o Estado de Israel continue ocupando terras palestinas com assentamentos ou mesmo que prenda crianças, nada se faz.
- Podemos estar diante do início da ruptura entre o mundo ocidental e o mundo árabe?
Renatho Costa: Não acredito que isso ocorra. Durante o governo Trump estava sendo colocada em prática a política de normalização das relações dos países árabes com o Estado de Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahren, Marrocos e Sudão já tinha se aproximado de Israel. Essa política é muito vantajosa para esses países e, por outro lado, bastante prejudicial para os palestinos. Então, não creio que esse tipo de fato vá fazer com que haja alguma alteração substancial, até porque, alguns países árabes têm reservas com relação ao Hamas. Mas a mídia árabe e iraniana tem cobrado uma posição desses países que haviam se aproximado de Israel para condenem a represália dos israelenses contra Gaza, que está ocorrendo de modo completamente desproporcional. Contudo, ainda assim, entendo que esses países árabes são muito pragmáticos e não vão abraçar a causa palestina de modo que venha a comprometer seus interesses regionais e globais. Muitas vezes, o que temos visto acerca da questão palestina é que muitos países árabes apoiam apenas de forma procedimental, mas há muito tempo que não fazem nada para auxiliar na resolução dos conflitos. Ou seja, dificilmente entrariam em uma guerra em nome dos palestinos.
- Porque há tanta resistência em reconhecer um Estado Palestino?
Renatho Costa: Porque não é interessante para o Estado de Israel. A base de todo Estado é saber quais são suas fronteiras e se você verificar quais são as de Israel, não vai encontrar essa informação em nenhum lugar, ou seja, há uma política notória de ampliação de fronteiras em direção ao território palestino. É inegável, mesmo consultando as propostas de acordos de paz anteriores, que o Estado de Israel pretende, mesmo, é controlar toda a região. Se focarmos na situação da Cisjordânia perceberemos que o território que hoje está “sob controle” dos palestinos é quase como um arquipélago no oceano, sequer está conectado. Todas as propostas sempre visam impedir que o Estado Palestino tenha unidade e soberania, ou seja, é possível pensar que o projeto israelense é manter essa situação como está, pois cada dia mais seu território se amplia e em mais algumas décadas, provavelmente não haverá povo palestino na região. Tudo será Israel. O caso de Gaza é ainda mais grave, pois não existe lugar no mundo que viva sob aquelas condições, mas mesmo assim as potências não fazem nada. Lamentavelmente, sem uma ação enfática, que altere a ordem estabelecida, os palestinos estão fadados ao extermínio, como era a proposta inicial para a criação de Israel e que o historiador israelense, Ilan Pappé, apontou em seu livro seminal A limpeza étnica da Palestina.
- Porque mesmo o Hamas estando baseado em território palestino não consegue ter apoio total?
Renatho Costa: O Hamas foi criado em 1987, durante o período de revoltas que se chamou Intifada – quando os palestinos se revoltaram contra os israelenses e foram para as ruas lutar contra eles, mesmo que só tivessem pedras e paus –, e o Ocidente viu com bons olhos porque ele fazia oposição à OLP (Organização para a Libertação da Palestina) que falava em nome dos palestinos desde 1964. A primeira diferença entre as duas organizações é o viés religioso do Hamas, mas ambos atuam em prol da independência da Palestina. E o Hamas não reconhece a existência do Estado de Israel, Bom, de modo muito breve, podemos dizer que na Faixa de Gaza o Hamas tem o apoio da grande maioria da população. Porque se não fosse essa organização, sequer poderia haver vida na região. O Hamas quem proporciona as escolas, hospitais, mesquitas, universidades… e está engajado numa luta que entende ser a ideal para a libertação da Palestina. Do outro lado, na Cisjordânia, quem governa os palestinos são os membros da Autoridade Palestina, que foi criada em consequência de acordos de paz, mas que tem uma visão secular da palestina. Ou seja, não busca a construção de um Estado pautado no modelo religioso, como o Hamas defende. Então, existem visões distintas de um Estado Palestino, mas essa é uma questão que deveria ser debatida pela população palestina e não pelo restante do mundo. Não cabe ao mundo dizer como determinado povo deve estabelecer seu modelo de governo, pois se assim o fosse, deveria atuar frente a muitos mais Estados e não somente diante dos palestinos. As divergências existem, mas a motivação de todos os palestinos é ser soberano e não estar subjugado ao Estado de Israel. Agora, a Autoridade Palestina recebe recursos de diversas organizações e Estados ocidentais, então, ela acaba condenando o Hamas por uma questão de interesses. Quando o Hamas venceu as eleições e assumiu a liderança da Autoridade Palestina, o Ocidente fez pressões e ameaças de que todos os recursos enviados a esta organização seriam suspensos que o Hamas estivesse à sua frente. Logo a Autoridade Palestina rompeu com o Hamas e cada um seguiu governando “uma parte da Palestina”. No entanto, sempre que buscam aproximação, o Ocidente tenta interferir. Retomando à sua pergunta, na verdade, cabe aos palestinos e às palestinas decidirem quem os governa, não o Ocidente e, cada vez que interferem nesse processo, mais distorções surgem na região.
Sobre o Livro:

Os autores também examinam o contexto histórico que levou à situação atual em Gaza, incluindo os conflitos e negociações entre Israel e os palestinos. Eles destacam as complexidades geopolíticas e as diferentes perspectivas envolvidas no conflito, proporcionando uma visão abrangente das causas e das consequências desse cenário.
Além disso, “Sem Caminhos para Gaza” oferece relatos de testemunhas e histórias pessoais de habitantes locais, o que humaniza a narrativa e torna o livro ainda mais impactante. Os autores buscam sensibilizar o leitor para a difícil realidade enfrentada por essas pessoas e promover uma reflexão sobre a necessidade de soluções justas e duradouras para o conflito.
Ao longo da obra, os autores também abordam questões políticas e diplomáticas, analisando as tentativas de mediação e os desafios enfrentados pelos envolvidos na busca por uma resolução pacífica. “Sem Caminhos para Gaza” se destaca como uma contribuição valiosa para a compreensão do conflito no Oriente Médio, oferecendo uma visão crítica e informada sobre uma das regiões mais conturbadas do mundo.
Os autores também dedicam uma parte do livro para explorar as iniciativas de organizações humanitárias e ativistas que trabalham para melhorar a situação em Gaza. Eles destacam os esforços de grupos locais e internacionais em fornecer ajuda humanitária, assistência médica e educação, apesar das dificuldades enfrentadas devido às restrições e ao ambiente hostil.




