
O município de Sant’Ana do Livramento registra uma média de dez tentativas de suicídio por mês, de acordo com dados oficiais que chegam ao conhecimento dos serviços de saúde. A coordenadora da área de Saúde Mental, Iana Hass, alerta, no entanto, que o número real é provavelmente maior devido à subnotificação de casos.
Em entrevista, Hass afirmou que o suicídio é um tema “prevenível” e ressaltou a importância de ampliar a discussão sobre o assunto para que mais pessoas em sofrimento busquem ajuda. “A gente tem que falar em prevenção, em tratamento, em cuidado, em acolhimento com escuta qualificada”, declarou.
Causas e Fatores de Risco
Segundo a coordenadora, não existe uma causa única para o suicídio, mas sim uma “combinação de fatores” que levam uma pessoa a uma situação de sofrimento extremo. Entre os principais gatilhos, ela citou o sofrimento emocional, perdas, violência, isolamento, uso de substâncias psicoativas e a dificuldade de acesso ao cuidado em saúde mental.
Um levantamento dos serviços locais indicou que a maioria das pessoas que tentaram ou cometeram suicídio recentemente no município não havia procurado atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou na Santa Casa de Misericórdia. “O que tem chamado mais a atenção é que essas pessoas não conseguiram procurar os nossos serviços”, lamentou Hass.
Perfil e Estigmas
A coordenadora destacou uma diferença no perfil das ocorrências entre gêneros. Enquanto a maioria dos suicídios consumados é cometida por homens, as mulheres registram um número maior de tentativas. A explicação, segundo ela, está nos métodos utilizados.
“Os homens, eles vão agir às vezes até por mais impulso, e aí eles vão cometer isso com mais agressividade”, explicou, citando o uso de enforcamento e armas de fogo, que são mais letais. As mulheres, por outro lado, tendem a utilizar métodos como a ingestão de medicamentos, o que aumenta a chance de socorro.
Iana Hass atribui essa diferença à construção social da masculinidade, que muitas vezes impede os homens de procurar ajuda por temerem parecer “fracos” ou que seu sofrimento seja visto como “frescura”. Ela criticou a postura de julgamento da sociedade em relação a esses casos e defendeu que o sofrimento seja visto como legítimo.
Ação e Prevenção
A coordenação de Saúde Mental está trabalhando para reorganizar os serviços e torná-los mais visíveis e acessíveis à população. “A minha ideia é justamente que a saúde mental deixe de ser um apêndice na saúde (…) e vire um assunto e uma temática tão importante quanto as outras”, afirmou.
A estratégia é focar na prevenção, na desmistificação do tema e em oferecer acolhimento qualificado para que as pessoas procurem ajuda antes de atingir um estado crítico. “A gente tem que deixar de ser um apêndice e virar assunto real e importante, que é o que é.”





