
A banalização do pagamento por atos sexuais envolvendo crianças e adolescentes é um dos principais desafios no combate à exploração sexual na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. O alerta foi feito por Eva Dengler, representante da organização Childhood Brasil, durante o II Fórum Binacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual, sediado em Sant’Ana do Livramento, na fronteira oeste gaúcha.
Dengler, que tem ampla experiência em programas de proteção infantojuvenil em nível nacional, enfatizou que as cidades fronteiriças, por sua natureza de intensa circulação de pessoas e bens, são mais suscetíveis a crimes dessa natureza. “A exploração sexual está conectada à circulação de pessoas, de turistas, de compradores em free shops. É fundamental que as cidades de fronteira atuem em conjunto para que a proteção da criança e do adolescente seja concreta”, afirmou.
Cenário alarmante e subnotificação
Os dados apresentados durante o Fórum expõem a gravidade da situação. De acordo com o último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em agosto do ano passado, o Brasil registra sete casos de violência sexual contra crianças a cada hora, totalizando mais de 60 mil ocorrências. No entanto, a especialista adverte que esses números não refletem a realidade completa, pois há uma alta taxa de subnotificação.
“A maioria dos casos que chegam à polícia — mais de 85% — está relacionada à violência intrafamiliar, que ocorre dentro de casa. Mas a exploração sexual, que envolve um terceiro, ainda é muito oculta. Há uma confusão na sociedade, que tenta justificar o pagamento por um serviço sexual de uma criança ou adolescente. E isso não pode acontecer. Exploração sexual é crime no Brasil e no Uruguai”, ressaltou Dengler.
Integração e qualificação profissional
A segunda edição do Fórum Binacional visa exatamente criar uma resposta mais coordenada e eficiente a esse cenário. A programação do evento focou na integração das forças de segurança, da rede de saúde, assistência social e do judiciário de ambos os países. “Precisamos garantir que a resposta dada pelos dois países seja coordenada. Não podemos confundir o pagamento por um serviço sexual como algo natural. Precisamos continuar olhando para isso de maneira muito direta”, disse.
Dengler defendeu a necessidade urgente de qualificação contínua dos profissionais que atuam na linha de frente — educadores, assistentes sociais e policiais —, além da sensibilização da sociedade. “É importante que a gente faça uma integração de esforços entre os dois países e entre as duas cidades [Sant’Ana do Livramento e Rivera] para que a proteção da criança seja efetivada de forma ordenada em todas as frentes.”





