SAÚDE

Santa Casa de Livramento amplia estrutura, mas alerta para subfinanciamento do Estado

Hospital investe na criação de novos ambulatórios com emendas parlamentares, enquanto ultrapassa teto de gastos de média e alta complexidade desde o ano passado.


A Santa Casa de Misericórdia de Sant’Ana do Livramento (RS) passa por um processo de reestruturação física para suportar o aumento do fluxo de pacientes. Nesta semana, a diretora da instituição, Leda Marisa dos Santos, detalhou o andamento das obras de novos espaços de atendimento e alertou para o subfinanciamento por parte do Estado. A unidade opera acima do limite de repasses para procedimentos médicos, gerando um gargalo financeiro contínuo para a gestão hospitalar.
Obras e readequação de espaços
O crescimento na capacidade de assistência exigiu mudanças logísticas no hospital. Áreas de apoio, como a lavanderia e o setor de nutrição, precisaram ser redimensionadas. O maior impacto atual ocorre na farmácia, setor que lida com alto volume de medicamentos e circulação de profissionais. O departamento já foi transferido para uma área provisória enquanto seu espaço definitivo, maior e modernizado, é finalizado.
As intervenções incluem também a construção de um novo ambulatório, projetado para conectar o térreo ao Pronto Socorro. A obra conta com um aporte de R$ 320 mil, oriundo de emenda parlamentar. A diretora frisou que o pagamento à empresa responsável é feito mediante a entrega das etapas da construção. Até o momento R$ 250 mil foram repassados.
O novo ambulatório tem previsão de entrega em aproximadamente 20 dias. O espaço será destinado a pacientes não internados que buscam consultas pré e pós-cirúrgicas, além de especialidades como traumatologia, nefrologia e cardiologia. A estrutura contará com seis consultórios e salas de espera específicas, com o objetivo de eliminar a permanência de pacientes em macas nos corredores do hospital.
Déficit e teto de gastos
O avanço estrutural, contudo, esbarra no financiamento regular do Sistema Único de Saúde (SUS). A diretora relatou que a Santa Casa ultrapassa sistematicamente o teto de Média e Alta Complexidade (MAC) estipulado pelo Estado. Desde outubro do ano passado, o hospital realiza procedimentos que não são cobertos pelo repasse oficial.
Na especialidade de traumatologia, por exemplo, o hospital atinge picos de 260 consultas mensais, mas o teto financeiro não sofre reajuste proporcional à demanda. Segundo a gestão, há limitação na liberação de Autorizações de Internação Hospitalar (AIH), o que impede o faturamento dos serviços excedentes prestados à população.
Ao analisar o cenário regional, Leda Marisa fez um paralelo estrito entre as planilhas financeiras de Livramento e do município de Bagé. Ela apontou que, embora as cidades tenham características de atendimento equivalentes, o teto de financiamento de Bagé é significativamente superior. O descompasso entre receita e despesa faz com que o hospital dependa fundamentalmente de emendas parlamentares para manter as portas abertas e custear melhorias.
Alerta sanitário
Na reta final da entrevista, a direção abordou o cenário epidemiológico local. O pico de internações por síndromes respiratórias agudas ocorreu no mês de maio. Houve uma leve queda em junho, mas a triagem do hospital já se prepara para uma nova onda de atendimentos devido à previsão de frio rigoroso para os próximos dias. A orientação da Santa Casa é que a população busque a vacinação e retome o uso de máscaras ao apresentar sintomas, a fim de evitar a superlotação e a disseminação de vírus.
Impacto
O cenário da Santa Casa de Livramento ilustra o conflito comum às instituições filantrópicas do país. O hospital consegue modernizar suas instalações e humanizar o atendimento por meio de articulação política pontual (emendas), mas sua sustentabilidade em longo prazo fica comprometida pela defasagem dos repasses estaduais frente à demanda real da população fronteiriça.

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